O Mistério do Relógio na Parede

Não é todo dia que vemos uma obra destinada ao público infantil conter leves traços do gênero de terror. Baseado em um livro escrito por John Bellairs, o filme nasce com essa premissa interessante de mesclar tipos bem diferenciados de gêneros que raramente se comunicam e que, para isso, precisam de grande sutileza.

E é no âmbito da sutileza que as coisas já se mostram erradas com a escolha do diretor Eli Roth. Famoso por filmes de terror sangrentos, Roth também dirigiu, ainda em 2018, o remake de Desejo de Matar, em que conseguiu transitar para a ação utilizando-se do seu estilo gore cheio de violência. Quando se trata, porém, de algo infantil, ficam faltando doses maiores de sensibilidade ao cineasta, limitado a utilizar trilha padrão de mistério com alguns elementos visuais bizarros para gerar certo clima assombrado.

Contando a história de um jovem recém órfão que vai morar com o tio, onde descobre um novo universo cheio de magia, as semelhanças com Harry Potter vão ficando por aí. O menino Lewis (Owen Vaccaro) não tem tanto carisma e os personagens mais interessantes são o tio Jonathan, vivido por Jack Black que, embora contenha nos exageros, ainda é o mesmo de sempre, e a feiticeira Florence, de Cate Blanchett, sempre com boas atuações até nos papeis mais rasos.

O visual do filme é, sem dúvidas, a melhor característica da obra. O design de produção é competente o suficiente para dar personalidade à casa, importante personagem da trama. Todos os objetos, composição de cena e soluções visuais são tratados com carinho, mesmo que a computação gráfica seja um tanto quanto básica, quando solicitada. Como já citada, a trilha sonora não se destaca, mas cumpre seu papel de preencher o fundo das situações.

Agora, ainda que seja direcionado ao público mais jovem, exigindo baixo grau de complexidade, o problema mais evidente do longa é o roteiro extremamente preguiçoso. As próprias regras e complicações geradas pela trama são facilmente burladas pelas antíteses do texto carente em criatividade que tenta ser mais do que realmente é. Claro exemplo disso fica pela única determinação estipulada pela história, que proibia certo armário de ser aberto por seu conteúdo altamente perigoso, mas deixando a chave ao lado dele. As motivações para a quebra de tal preceito são igualmente fracas, assim como personagens secundários totalmente descartáveis.

Mirando em conceber um novo universo mágico (lê-se franquia muito rentável) mas deixando a desejar com sua trama fraca e montagem sem ritmo e sem energia, O Mistério do Relógio na Parede entretém crianças e dá sono em adultos. Não chega a ser desastroso, mas ficar bem preso ao chão enquanto mirava em voos grandiosos.

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Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do site Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!