Cá estamos nós, ano de 2018, pleno século XXI, assistindo a um filme de tubarão assassino. Mas não se engane, agora estamos diante de uma inovação na área: o protagonista, afinal, não é um peixe qualquer, mas sim um ancestral considerado extinto há dois milhões de anos: o Megalodonte.

E na prática, o que isso traz de novidade? Pois é, absolutamente nada. A trama é exatamente aquela que podemos esperar de um filme desse tipo. Alguma missão submarina que requer pessoas altamente capacitadas para tal função, mas que, ainda que sejam as melhores naquilo, são estúpidas o suficiente para dar andamento no roteiro. Afinal, se fossem assim tão espertas, não teríamos filme…

Pode parecer estranho, mas tamanha criatividade veio como uma adaptação de uma obra literária do autor Steve Alten. E a justificativa de filmarem algo desse tipo é bem simples. O estúdio tem grande parte das ações no mercado chinês que representa, hoje, a segunda maior fonte de bilheteria mundial. Sendo assim, a fácil receita é juntar um astro carismático dos filmes de ação americanos e um elenco de apoio quase todo chinês, rodar o longa, em sua maioria, na Ásia e adicionar um monstro gigante. Pronto, temos a atenção dos dois lados do mundo. Perceba que, nessa receita, não são necessárias adições como um bom roteiro ou história coerente.

Tudo bem que uma obra que recebe o nome de Megatubarão já carrega em sua alcunha o alerta para o público. Esse é o tipo de filme famoso por, praticamente, pedir para seus espectadores desligarem o cérebro e acompanharem apenas pela diversão. E é justamente aí que está o problema. Não é errado deixar toda e qualquer reflexão de lado em prol do puro entretenimento cinematográfico. Aliás, o cinema deve entreter e agradar a todos os gostos. Mas o deslize começa quando a proposta já é concebida errada. Um orçamento de 150 milhões de dólares alça a produção diretamente para o hall dos blockbusters, grandes nomes do cinema. Esse escopo épico tira da obra toda a liberdade criativa que a direção poderia ter, tornando-se apenas produto comercial. Não é para menos que pelo menos dois grandes diretores já abandonaram o navio antes de Jon Turteltaub assumir o cargo. E sua direção é insossa e genérica, falhando em explanar a dimensão da criatura do título e optando pelas tão repetidas tomadas trêmulas e rapidamente cortadas nas cenas na água, com a entediante tentativa de criar certa claustrofobia e tensão. E o próprio Turteltaub declarou que foi impedido pelo estúdio de gravar as cenas mais sangrentas que tinha planejado, que dariam uma cara de filme B para a produção, embora fariam todo o sentido para não deixar aparente que o longa se leva a sério demais.

Jason Statham e seu carisma dão um ar de graça na tela. O elenco chinês também é competente em realizar o que foi determinado pelo roteiro pobre. Os diálogos, por outro lado, são sempre expositivos e, por muitas vezes, desnecessários, soando ridículo e não chegando nem perto do humor claramente almejado. Até mesmo o Megalodonte acaba mal explorado, perdendo-se a chance de criar uma aura mais misteriosa para contribuir na mitologia do predador.

Tendo em mente que Megatubarão tem alma do subgênero trash mas se transveste de grande produção, deixando de lado sua vertente divertida, conclui-se que, ao mirar em agradar o maior público possível, com um oceano de possibilidades, acabaram apenas acertando a pequena poça d’água do nicho que não se importa em ver outro filme qualquer de tubarão sem expressão.

Comentários

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do site Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!