Kingsman: Serviço Secreto

Em território repleto de ação realista e dramática, vertente que parece dominar as telonas em tempo de James Bond repaginado (desde a escalação de Daniel Craig, em Casino Royale), Jason Bourne e, até mesmo, Jack Bauer – inspirações citadas pelo próprio filme em questão – Kingsman se sobressai por apostar em tendência não trivial, unindo magistralmente a violência graficamente artística de Kickass, o bom humor digno de Guardiões da Galáxia e a inteligência e elegância das tramas de espionagem, essencialmente britânicas, com antagonistas interessantes e bem desenvolvidos.

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Trazendo muito mais que o tema de organizações secretas, a trama mostra um assunto pertinente e extremamente contemporâneo. O vilão bilionário Valentine, interpretado por um Samuel L. Jackson inspirado, carrega a dicotomia de salvar o mundo de maneira dolorosa, expondo a humanidade a uma seleção natural. Embora seu objetivo seja nobre, os meios escolhidos pelo excêntrico personagem são violentos e sanguinários, se opondo a sua própria fragilidade em não poder ver, sequer, uma gota de sangue sem se apavorar e passar mal. Tão bom quanto L. Jackson com língua presa, Sofia Boutella é Gazelle, a capanga encarregada de fazer o serviço sujo de Valentine, utilizando para tal suas lâminas super afiadas no lugar das pernas, capazes de cortar pessoas em um piscar de olhos.

Do outro lado da história temos os elegantes representativos britânicos. Encarnando a figura máxima do que é ser um Kingsman, Harry Hart, ou Galahad (Colin Firth), indica o jovem Eggsy (Taron Egerton) para a vaga que está aberta na corporação. Graças às atuações de Firth, vencedor do Oscar de melhor ator por O Discurso do Rei, com toda sua classe digna de um Sir, e Egerton que transmite muito bem os trejeitos malandros do personagem em sua vida na rua, porém assume ainda melhor a forma glamorosa dos ternos sob medida. Devido ao carisma, ambos criam ótima relação entre eles e com o público, criando, sem forçar a barra, empatia e admiração.

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Adaptado dos quadrinhos de Mark Millar e David Gibbons, o roteiro foi escrito por Matthew Vaughn e Jane Goldman, dupla responsável não só pelo já citado Kickass, mas também por X-Men: First Class. Os dois demonstram não só terem aprendido com as adaptações anteriores, mas desenvolveram o que têm de melhor em cada uma delas. As cenas de luta em Kingsman, além de conduzidas com aspecto incrível, que empolgam o público, são filmadas com uma câmera que passeia meio a confusão, pequenos planos sequência que nos permitem acompanhar e contemplar cada movimento da ação. Os poucos cortes servem para a troca de ângulo e melhor compreensão da cena, entregando uma visão panorâmica e esclarecedora de tudo que acontece na tela. A violência é grande, característica gráfica que marca ainda mais o estilo do longa, também dirigido por Vaughn, justificando a censura de 16 anos.

Embora todos os elementos sejam muito bem amarrados e funcionem tão bem juntos, talvez o que mais se destaque em Kingsman: The Secret Service (originalmente) seja o fato dele não se levar a sério. O filme não apresenta limites do que é real ou crível, é despreocupado e não se atém em deixar os pés no chão. A criatividade é inerente desde os primeiros segundos de projeção em que os destroços de um forte caem na tela e se transformam nas letras de créditos iniciais – ao som de Money for Nothing, de Dire Straits, diga-se. Mesmo que, por vezes, apresente conteúdo ligeiramente non-sense ou tangencie o ridículo, a execução é perfeitamente conduzida de maneira que não se perca o controle nem fique cafona. Cenas como a briga na igreja (desde o sermão conservador inicial) e a explosão dos chips implantados em algumas cabeças são verdadeiros exemplos de como construir ação fictícia sem perder o bom humor que se extinguiu nos filmes mais recentes, que preferem seguir apenas o caminho do realismo.

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Como único problema, os 129 minutos de diversão são incapazes de manter o ritmo por toda sua extensão. Não que existam partes ruins, mas algumas delas são entretenimentos de tão alto nível que, como revés, criam expectativas de mais ocorrências do mesmo estilo. Vale ressaltar que a trilha sonora ajuda – e muito! – a retomar a cadência dos acontecimentos, permitindo ao público se deixar levar, ainda mais, pelo espetáculo.

Nessa interpretação moderna dos cavaleiros da Távola Redonda, Vaughn consegue entregar um material inovador e inteligente, ainda que nascido de retalhos de famosos clássicos, e acerta em cheio em preencher a lacuna do gênero que já foi popular há décadas atrás. Agora que estabeleceu seu universo, resta esperar para que seja apenas um ótimo início de mitologia que só tenda a expandir e dar forças para outras novidades criativas que sigam seu caminho.

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