Análises

Publicado em 22nd junho, 2018 | by Giuseppe Turchetti

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Hereditário

E lá vamos nós para mais um filme de terror misterioso, cheio de clichês e jump scares, com história batida e personagens de inteligência totalmente duvidosa, não é mesmo? Definitivamente, esse não é o caso de Hereditário que já começa a surpreender por aí.

A premissa de acompanhar uma família e suas esquisitices, bem como coisas fora do comum que passam a atormentar suas vidas não parece inovar, mas a partir disso que o diretor Ari Aster começa sua jornada de subversão e surpresas. Ao invés de apostar na fórmula mágica do terror, o diretor desenvolve um drama família tão denso que, apesar de parecer distante do gênero, logo começa a causar o sentimento mais presente ao longo de toda a projeção: a angústia. Tudo soa estranho. Com a ajuda da trilha sonora magnífica capaz de elevar a tensão a níveis quase insuportáveis, inclusive na sua ausência pontual, as cenas se sucedem em uma progressão meticulosamente articuladas para incomodar ao máximo os espectadores. E esse incômodo é, exatamente, aquilo que o filme quer causar.

Além de diretor, Aster também assina o roteiro. Fato este que justifica o perfeito encaixe entre trama e quesitos mais técnicos do longa. As cenas revelam um enorme cuidado desde sua concepção, utilizando muitos ângulos de câmera ousados além de enquadramentos provocantes, como a forte utilização de planos abertos em corredores fechados, causando uma sensação natural de claustrofobia. Além disso, mantendo a afinação geral, a montagem promove ainda mais incômodo nos espectadores ao demorar a cortar cenas específicas de forma proposital, ocasionando desconforto e aumento da tensão.

Outro fator normalmente genérico em filmes do gênero, que costumam ter orçamentos bem modestos, é a atuação. Ainda que não conte com nomes carregados de cifras, o elenco tem grande parcela de responsabilidade por fazer Hereditário funcionar. A mãe da família, Annie (Toni Collette), não economiza no desempenho que já levou a atriz a uma indicação ao Oscar e convence, a cada expressão, que tudo está perdido. Sensação esta, aliás, que toma conta a cada vez mais da trama que brinca com casualidade e inevitabilidade, dando fundamento ao título do filme como se, por exemplo, certos acontecimentos da vida fossem herdados graças ao ambiente e família que nascemos e não importa o que façamos, estamos sempre destinados à nossa sina.

Aproveitando-se de um escopo reduzido que trabalha com poucos personagens dando a profundidade necessária para cada um deles, a narrativa é inteligente e trata o público como tal. Igualmente dinâmica é a fotografia que por muito sufoca em tons frios e desesperançosos como, por vezes, acalenta com tons quentes, sem deixar de brincar com nossa imaginação ao usar o escuro e suas silhuetas capazes de nos pregar peças.

Subvertendo os clichês, tramando contra nossas expectativas e espertamente imprevisível, Hereditário larga na frente pela corrida entre as boas surpresas do cinema e entrega um filme desesperador e provocante, bem como foi planejado para ser.

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Sobre o Autor

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, curso de Web Design, empregado no setor de TI como analista de suporte e desenvolvimento e colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté. Respiro o universo Geek todo o tempo. Os assuntos abordados pelo Censura Geek fazem parte da minha vida e é de grande satisfação deixar minha opinião aqui. Sou gamer desde a geração Atari, tive muitas HQs na infância, filmes e séries sempre me fizeram companhia. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!



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