Análises

Publicado em 9th fevereiro, 2018 | by Giuseppe Turchetti

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Cinquenta Tons de Liberdade

Chegando aos cinemas oportunamente devido ao sucesso literário, a série de histórias apimentadas Cinquenta Tons de Cinza é, sem dúvidas um fenômeno de complexa compreensão. Sim, fenômeno por vários motivos, a começar pela origem, no mínimo, curiosa, tendo nascido a partir de uma história de fãs de Crepúsculo. Além disso, sua abordagem mais sexual, que até então costumava ser tratada como tabu, passou a fazer parte da leitura de milhões de pessoas ao redor do mundo, ganhando espaço em discussões familiares e na internet.

É uma pena, porém, que uma história de romance diferente do habitual, que abrange um assunto pouco explorado pelas grandes mídias, seja tão raso e unidimensional, superficial e maçante; pobre de alma. Especialmente nesse terceiro título, o filme conta com um início acelerado, como se tivesse ainda muito a contar até o fim da projeção, e abusa das cenas de sexo de forma quase ritmada, intercalando com alguma dramaticidade infantil da trama. Para uma obra que tanto flerta com o soft porn e apela para várias cenas pesadas logo na primeira metade, a direção de James Foley soa extremamente protocolar e sem inspiração. As cenas em que o diretor tenta emular sentimentos ou gerar alguma excitação por parte do público falham completamente por serem filmadas sem um desenvolvimento adequado, sem expectativa, sem gerar um clima propício para tais momentos.

E mesmo após outros dois longas, o ator Jamie Dornan e a atriz Dakota Johnson ainda parecem desconfortáveis na tela, sem química e sem sal. E com o agravante da falta de coerência tanto pelo roteiro quanto pelas ações dos personagens, a narrativa se torna tão fraca a ponto de se torna cômica. As atitudes contraditórias, principalmente de Anastasia, impedem qualquer profundidade ou verossimilhança com a realidade, o que tira a atenção dos espectadores menos interessados em, apenas, assistir cenas quentes na tela grande.

O roteiro em si, ainda que adaptado do livro, é preguiçoso e sem criatividade. Cria situações que não servem para ajudar a trama a caminhar, levanta problemáticas que são esquecidas ao longo do filme e, da metade para o fim, tenta esquecer as origens e focar em uma tensão e pseudo-ação que ultrapassam a linha do ridículo. E, como se não bastasse, o diretor consegue tornar o final ainda mais brega com a “incrível” opção de inserir meio ao filme um clip, com o tema musical da franquia ao fundo, mostrando cenas dos longas anteriores como um grande flashback emocional. Recurso pobre e desnecessário que tem como função prolongar a duração do ato final.

Para uma campanha de marketing que promete o “clímax” nesse final de trilogia, o filme não passa de um capítulo final que utiliza um amontoado de cenas que tentam contar uma história que poderia ser interessante, mas, em detrimento da qualidade, preferiu priorizar a sensualidade. No fim, o cinema agora pode tirar suas algemas e amarras, comemorando, feliz, seus cinquenta tons de liberdade dessa franquia terminada.

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Sobre o Autor

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, curso de Web Design, empregado no setor de TI como analista de suporte e desenvolvimento e colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté. Respiro o universo Geek todo o tempo. Os assuntos abordados pelo Censura Geek fazem parte da minha vida e é de grande satisfação deixar minha opinião aqui. Sou gamer desde a geração Atari, tive muitas HQs na infância, filmes e séries sempre me fizeram companhia. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!



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