Bohemian Rhapsody

Embora gosto seja um dos assuntos que não se discute, a humanidade aprendeu que, certas coisas, são conceitos estabelecidos por méritos alcançados. Portanto, dizer que Queen é uma das maiores bandas da história não é nenhum exagero, transcendendo qualquer barreira, seja de gosto musical, seja outra possível.

Dedicar um longa-metragem à essa banda é uma homenagem que, embora justa, parece até pequena diante da dimensão do próprio Queen. Sendo assim, o filme já carrega consigo uma bagagem extra-tela capaz de criar empatia antes mesmo de ser exibido. Sabendo-se da história a ser contada e da trilha sonora que vai embalar as mais de duas horas de duração, Bohemian Rhapsody é, talvez, um dos filmes mais autoconscientes dos últimos tempos, usando isso a favor de seu roteiro.

Plasticamente a produção é extremamente assertiva. O conjunto da direção com a escolha de ângulos e da fotografia cheia de luzes, cores e abusos cria um clima exagerado e totalmente condizente. O diretor Bryan Singer, que apresentou problemas durante as filmagens e acabou se afastando da direção antes do término do longa, conseguiu imprimir uma marca que perdurou mesmo em sua ausência, sem causar recortes na tela, sendo creditado exclusivamente, ainda que Dexter Fletcher tenha assumido seu lugar. A corajosa decisão de reproduzir grandes shows da banda deu peso e adicionou maior grau de realidade à narração, colocando o público bem próximo da ação nos palcos, acompanhando de forma bem pessoal o grande astro em cena: Freddie Mercury, basicamente em um cover feito pelo ator Remi Malek.

O elenco, a propósito, corresponde bem a magnitude dos personagens ali representados. Gwilym Lee assusta pela proximidade em sua aparência com Brian May. Já Ben Hardy conquista com a simpatia de Roger Taylor e acaba como um alívio cômico. Porém, como o roteiro define acompanhar a banda pela perspectiva de seu vocalista, é Malek que tem mais tempo de desenvolver seu drama em tela. Nitidamente apaixonado pelo que está fazendo, demonstrando muito estudo de personagem em seus trejeitos e movimentos corporais, o ator consegue convencer, inclusive na aparência. É o tipo de interpretação que não surpreenderia se indicada ao Oscar. Sua dublagem das canções é satisfatória, colocando muito empenho e energia nas apresentações, deixando transparecer o playback em pouquíssimos momentos totalmente irrelevantes para os menos detalhistas ou por aqueles que se deixam levar pelas músicas. Tudo é colocado como um verdadeiro espetáculo.

Já estruturalmente falando, o roteiro tem lá seus problemas. Adaptando 15 anos de estrada do Queen, o primeiro ato do filme acaba extremamente acelerado. Ao demarcar mal a passagem do tempo, é comum, por toda a extensão da projeção, o público se sentir perdido na história, sem saber em quantos anos os fatos distam uns dos outros. E apesar da montagem se esforçar em ser, até mesmo, engraçadinha, o ritmo impresso acaba dando uma nuance de colcha de retalhos que apenas coloca cenas juntas de forma a preparar o terreno para a próxima música que será apresentada, ou outro instante mais emocional que realmente importe, ainda que a cada número musical a recompensa seja sempre válida.

Abusando dessa estrutura mais pobre e formulaica, Bohemian Rhapsody deveria compensar sua simplicidade cinematográfica com conteúdo bem notável. Infelizmente, essa não é a maneira como os produtores queriam mostrar a banda. Tipicamente um produto de marketing de luxo, o filme se aproveita da excentricidade de seu protagonista para elevar o status de seus integrantes para algo mitológico. Como dependeu de aprovação do próprio Queen, o roteiro é demasiado brando em relação as adversidades de uma vida rock n roll dos anos 80. A grande maioria do público sabe bem dos exageros que levaram Freddie Mercury a sua decadência e, embora o longa seja competente em nos levar nessa viagem, a ascensão pós queda é preterida em prol da divindade criada a partir da imagem do cantor e seus companheiros. Estes, inclusive, repetitivamente lembrados pelo argumento do filme como responsáveis por lapidar o talento bruto de Mercury. É esse tipo de autoconsciência que mantém tudo com os pés no chão demais, glamoroso, limpo, lendário, colocando os assuntos mais sérios e pesados, que poderiam ser trazidos à tona, apenas como barreiras que engrandecem ainda mais as passagens de nossos heróis sobre-humanos por essa terra de reles mortais.

Repleto de questões importantes que não são aprofundadas, Bohemian Rhapsody funciona muito bem como o produto de entretenimento que é, ao passo da autopropaganda que gera, tornando a performance grandiosa no telão e áudio apurado dos cinemas. Cinematograficamente a obra não alcança a grandiosidade da banda, que merecia ainda mais, embora de forma alguma atrapalhe o show de continuar. The show must go on!

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Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do site Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!