Análises

Publicado em 6th outubro, 2017 | by Giuseppe Turchetti

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Blade Runner 2049

A máquina de franquias hollywoodiana, dessa vez, voltou 35 anos no tempo para resgatar um clássico cult dos cinemas e trazê-lo de volta aos holofotes. A primeira questão levantada sempre é sobre a necessidade da continuação. Precisaria, Blade Runner, de algo a mais além de suas perguntas sem respostas depois de tantas versões do primeiro filme? Por mais óbvio que essa argumentação tenda ao negativo, essa impressão muda completamente ao assistir a sequência.

Em 1982, ano de lançamento do longa original, dirigido por Ridley Scott, Blade Runner, apesar de rejeitado pelo público e crítica, marcou a época pela revolução narrativa carregada de discussões filosóficas responsáveis tanto pelo ódio (advindo, provavelmente, do não entendimento) da audiência quanto pela elevação ao status de cult, tempos depois. Agora, mais de três décadas afrente, a sequência não funciona como nova revolução para os tempos atuais, mas se mostra competente em entender os complexos mais minuciosos da obra de Scott para criar uma nova história totalmente condizente com a realidade daquele universo. No que se trata de continuação, Blade Runner 2049 é um exemplo de como se expande o escopo de um universo rico com uma narrativa interessante de se contar sem parecer apenas um caça-níquel.

Sabiamente escolhido, o diretor Denis Villeneuve demonstra ter captado exatamente a essência que Blade Runner representa para reproduzir em seu filme. Não só reproduzir, mas adicionar tantas outras características pelas quais ele já é conhecido em seus trabalhos, como sua precisão cirúrgica de enquadramentos, o equilíbrio entre as cenas carregadas e arrastadas, contemplativas, com outras de ação, a fotografia (de Roger Deakins) maravilhosa e digna de indicação para as premiações do cinema e a trilha sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch que reverencia, o tempo todo, aquela outrora feita por Vangelis, que exalta ainda mais o poder e significado das questões do filme, causando desconforto e euforia nos momentos certos.

O primor técnico é fator imprescindível para amarrar a história que continua a questionar sobre humanidade. O fato de abordar o mesmo tema de uma forma revitalizada e melhorada só faz do assunto algo ainda mais atual, principalmente com a inserção da inteligência artificial Joi (Ana de Armas), que remete a solidão dos tempos modernos, lembrando como foi retratado no filme Ela (Her – 2013). O protagonista, Agente K, carrega um tom sério e sóbrio graças a interpretação de Ryan Gosling. Ele é o caçador de androides da vez, mas, diferentemente do antecessor, já é declarado como replicante nas primeiras cenas e, ao longo de seu desenvolvimento, ganha camadas profundas de humanidade. Embora o vilão seja o excêntrico Niander Wallace, do não menos excêntrico Jared Leto, quem ganha destaque é a replicante Luv (Sylvia Hoeks), fria, calculista e ameaçadora. A escalação do elenco, bem como as atuações entregues são, a propósito, outro ponto tão acertado do longa quanto a escalação de Villeneuve.

Voltando a falar em essência, Blade Runner 2049, bem como o original, não é um filme para todos os públicos. Embora acertando os pontos negativos do anterior, com uma narração mais abrangente e montagem aprimorada, os temas complexos e a falta de respostas são fatores que elevam o patamar da obra e podem não ser bem aceitas pela parcela do público que espera por um filme de ação. Com quase três horas de duração, contemplação e questionamentos, Villeneuve e seus roteiristas, Hampton Fancher e Michael Green, dão aula de cinema e mostram como ótimas sequências podem ser feitas.

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Sobre o Autor

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, curso de Web Design, empregado no setor de TI como analista de suporte e desenvolvimento e colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté. Respiro o universo Geek todo o tempo. Os assuntos abordados pelo Censura Geek fazem parte da minha vida e é de grande satisfação deixar minha opinião aqui. Sou gamer desde a geração Atari, tive muitas HQs na infância, filmes e séries sempre me fizeram companhia. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!



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