Batman vs Superman: A Origem da Justiça

bvs_posterApresentar um novo Batman e a Mulher Maravilha, dar início a um universo compartilhado nos cinemas e limpar a bagunça do Homem de Aço (Man of Steel, 2013) eram, apenas, algumas das premissas que o diretor Zack Snyder e sua equipe criativa tinham para encaixar no novo filme da DC. Sim, algumas, pois ainda há espaço para muitas outras discussões ao longo dos 153 minutos de projeção.

Se a maior dúvida das pessoas era quanto a Ben Affleck dando vida ao homem-morcego, isso, certamente, não será mais problema. Embora não haja muito espaço para Affleck demonstrar grandes atuações, seu Batman é sisudo, obcecado e corrompido pela violência e criminalidade de 20 anos limpando as ruas de Gotham. Como o esperado, tudo isso é reflexo do Cavaleiro das Trevas criado por Frank Miller. Grande acerto, satisfazendo aquilo que os fãs queriam ver. Aliás, toda a atmosfera que circunda Gotham é extremamente concisa e coesa, funcionando perfeitamente com o restante, incluindo Alfred (Jeremy Irons), que também foi retirado das páginas dos quadrinhos.

Por outro lado, quem esperava atuações mais profundas de Henry Cavill pode se decepcionar. Talvez nem pelo ator em si, mas dando continuidade às questões levantadas no predecessor, Superman é colocado como figura de extrema superioridade, criatura suprema, quase divina. Tal status de deus grego sobre as terras atuais cria um misticismo que o afasta demais dos humanos. O que temos é um herói frio, distante, cheio de dúvidas sobre seu papel de salvador ou causador de problemas maiores. Questionamentos estes que são totalmente pertinentes ao personagem, refletem também boa parte da história original trazida dos quadrinhos, entretanto acabam por pesar no tom por se arrastarem demais, afetando o ritmo de desenvolvimento, congestionando o longa com cenas que deveriam ser épicas, cenas que deviam ser mais épicas, e cenas ainda mais épicas que as anteriores.

bvs_ww

O grande trunfo e agradável surpresa atende pelo nome de Gal Gadot. A atriz faz participações pontuais, sempre chamando a atenção para ela. Com ar misterioso e intrigante, a sequência de acontecimentos tem êxito em criar a ansiedade pelo aparecimento da heroína devidamente trajada. Mais uma atuação eficaz que, graças ao carisma indicado por Gadot, agrada os expectadores e contribui a favor do filme.

Completando o elenco mais estrelado e esperado, Jesse Eisenberg entrega seu personagem de forma distinta do habitual Lex Luthor. O vilão demonstra uma natureza vilanesca desde o início e não precisar de outra subtrama para desenvolver seu lado obscuro, ou seja, é um personagem que já chegou pronto para a trama. Luthor consegue ser ameaçador, transparece sua mente brilhante e perturbada e convence. O ponto fraco fica pelo seu jeito de psicótico lunático que se assemelha demais, por exemplo, ao Coringa. É possível, porém, que as consequências sofridas nessa trama o transformem, futuramente, naquele Lex Luthor dos quadrinhos.

bvs_lex

Com tantas subtramas, entre um desenvolvimento ou outro, a cadência se prejudica com explicações profundas sobre determinados assuntos e rápidas pinceladas em outros. Assim como já havia acontecido em Homem de Aço, o roteiro utiliza artifícios ágeis e simples demais para a resolução de certos entraves, por vezes complexos, enquanto empaca em, por exemplo, demonstrar o quão afetado Bruce Wayne se tornou, gastando tempo demasiado com pesadelos. O tom da obra é pesado, cheia de interferências psicológicas e diálogos importantes na condução do texto.

A direção de Snyder não permite que o público esqueça da sua assinatura nem por um segundo. As luzes, os contrastes, as câmeras lentas e a ação fluída sem cortes desnecessários marcam presença e dão identidade ao longa. A forma de filmar e toda a estilização gráfica funcionam bem para ajudar no contexto e explicitar a áurea dos personagens. É nítido, para os fãs, que Snyder não só fez um excelente trabalho de leitura das HQs, como também estudou as histórias por trás dos games mais recentes da DC, com fortes influências da série de jogos Batman Arkham e até mesmo referência a Injustice. Diversos quadros, ou até cenas inteiras, parecem ter sidos retirados direto dos quadrinhos ou vídeo-games. Ponto para o esmero e cuidado do diretor.

Contendo muitos fan-sevices, Batman v Superman – Dawn of Justice (no original) se arrisca de maneira corajosa. Existe a entrega daquilo que era realmente esperado pelos mais conhecedores de longa data e de outras mídias, bem como existe o respeito completamente aceitável ao cânone da DC se tratando de uma adaptação. E o risco é justamente esse. O mesmo filme que pode agradar os mais fanáticos flerta, perigosamente, com uma tênue linha que limita o que é diversão para o grande público cinematográfico. Limite este que, infelizmente, impede Batman vs Superman de alçar voos mais altos na aceitação do público geral.

4

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.