Carregando o título de última grande produção do ano e, mais que isso, o único lançamento da DC Comics em seu universo cinematográfico em 2018, Aquaman chega aos cinemas com a difícil missão de atrair, mais uma vez, aquele público decepcionado que não conseguiu sair muito satisfeito da exibição de Liga da Justiça, já há um ano.

Temos diante de nós um personagem difícil, que traz consigo uma mitologia ainda mais complexa. O herói que há tempos virou piada por ser aquele que fala com peixes precisa, agora, dar a volta por cima e revitalizar toda uma empresa que vem, de certa forma, desacreditada. Condenada a dar continuidade, ainda que com resquícios apenas, do finado estilo que Zack Snyder definiu para a DC, a produção reafirma o novo tom desse universo. Diante dessa mistura e adequações que vem sido foco nos últimos longas, Aquaman sofre um bocado com certas incoerências geradas no caminho traçado. Os pontos mais fracos aqui são, claramente, um roteiro repleto de elementos para se apresentar e explicar, bem como algumas atuações duvidosas, provavelmente causadas pela tal mudança de tom.

A surpresa, porém, começa daqui em diante. Se tais ingrediente supracitados são, na maioria dos casos, suficientes para estragar toda uma obra, dessa vez o filme consegue mostrar tantas outras qualidades que é capaz de sobrepor seus defeitos. A começar por James Wan, conhecido por dirigir franquias do terror de baixíssimo orçamento e faturar alto com elas, mas também famoso por Velozes e Furiosos 7 e suas cenas insanas. O trato que Wan dá ao filme é, muito além de perceptível, admirável, inúmeras vezes, durante a produção, principalmente nas cenas de ação. As tomadas são inventivas, cheias de ângulos corajosos e viradas que acompanham os movimentos da luta. As coreografias limpas em conjunto com a montagem bem resolvida dão gosto em assistir batalhas completamente inteligíveis e plasticamente incríveis. Mesmo que o diretor não saiba exatamente o que fazer com algumas piadas que não encaixam, nem pelo texto, nem pelo tempo da comédia, ele ainda é capaz de provocar risos, talvez até inconscientes, em momentos mais inspirados.

Como em um videogame, o filme determina bem seus personagens, é didático em demonstrar todos os interesses e motivações, ainda que alguns diálogos sejam fracos, e deixa clara a missão principal da trama, bem como as missões secundárias para progressão e fortalecimento do protagonista. Jason Momoa havia sido escolhido para viver um herói sisudo e brucutu, mas teve que se adaptar ao desleixado e engraçado que lhe restou. Verdade seja dita e não falta carisma ao ator que, com sua presença de tela, agrada em quase tudo e deixa a desejar apenas em profundidade dramática (e algumas piadinhas), que não é o foco da vez. Já Amber Heard é quem mais sofre. A atriz, já conhecida por atuações menos expressivas, segura o fardo de uma personagem condutora da trama que teve diálogos inconsistentes e quase nenhuma química para convencer em sua relação com o protagonista. Faltou naturalidade e melhor direção para a rainha Mera. No panteão dos vilões, Patrick Wilson e Yahya Abdul-Mateen II dão vida ao Rei Orm e Arraia Negra, respectivamente, entregando personagens cartunescos e condizentes com todos o clima do longa.

Indo muito além do clima divertido e aventuresco que o filme evoca diretamente do material original, James Wan merece todo o mérito pela criação da mitologia dos sete mares. Atlântida e os outros reinos oceânicos contam com uma riqueza impressionante de detalhes. Cada elemento foi meticulosamente planejado. As cenas debaixo da água são uma explosão de cores, formas e movimentos, explorando tudo que a física subaquática nos permite. É um verdadeiro desfile da DC no cinema. Os efeitos visuais são presentes em todo o tempo, claro, mas utilizam ótimas soluções visuais que nos fazem acostumar com a sensação primeiramente estranha. Igualmente lindos são os visuais das criaturas marinhas e todo o design de produção que envolve tais personagens, armaduras, arquitetura e fotografia, com direito a pequenos planos-sequência muito bem dirigidos.

Servindo como um relaxante banho em águas tranquilas, Aquaman é uma aventura gostosa de acompanhar e se assume como poucas vezes visto no cinema. É um filme leve, cafona e sem medo de abraçar sua origem. É colorido, grandioso, épico e deslumbrante. Seus problemas são reais e perceptíveis, porém nunca se tornam expressivos quanto as qualidades que os cercam e abafam. Vida longa ao rei de Atlântida!

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