Mulher-Maravilha 1984

Mulher-Maravilha 1984

O ano de 2020 será pra sempre marcado como um dos períodos mais diferentes da história da humanidade, principalmente pela quantidade de informações e recordações que levaremos daqui em diante. E, nesse momento de tanta dificuldade, sentimentos como solidão, tristeza e falta de esperança assolam grande parte da população mundial. Embora realizado antes mesmo de toda essa fatalidade, Mulher-Maravilha 1984, adiado do meio do ano para agora, fim de dezembro, acaba caindo como uma luva e funciona como um grande raio de esperança meio a tantos problemas atuais.

Levando a trama para os anos 80, a produção já tem um grande fator nostálgico que costuma agradar boa parcela do público da cultura pop. Muitas cores e extravagâncias acompanham essa época mágica do imaginário coletivo e, com isso, vemos um dos filmes de heróis mais diferentes dessa geração. Principalmente em termos inerentes de DC Comics. A era do sombrio e realista ficou tão para trás que já nem é possível associar o longa atual com aquele universo cinematográfico DC de outrora. Aliás, o que notamos, na verdade, é uma total desassociação mesmo, uma vez que algumas coisas aqui presentes não fariam sentido pensando na linha temporal de outros filmes. Esse nem é o foco, enfim. O aspecto de maior destaque é, sem dúvidas, o tom da obra.

Encarando sua própria existência de maneira bem mais leve, o filme se apoia de vez no tom fantástico para encontrar sua realidade característica. Diana Prince, mais uma vez vivida por Gal Gadot, parece bem mais a vontade aqui, sabendo o que está fazendo e, mais importante, com suas motivações e convicções bem delineadas. Tudo se trata de esperança, bondade, altruísmo e amor. O roteiro aposta tanto em humanizar a personagem que temos Diana muito mais protagonista que seu próprio alter ego Mulher-Maravilha.

Apesar das boas intenções, uma história precisa ser contada para que tenhamos um filme. Mulher-Maravilha 1984 conta, acima de tudo, como a inveja e a ganância são superpoderes capazes de destruir tudo que conhecemos e, com dois antagonistas, traça uma narrativa gostosa de ser acompanhada, sem desafiar a inteligência dos espectadores e sem se levar a sério demais. A narrativa resolve bem os problemas que ela mesma cria, principalmente no retorno do personagem de Chris Pine, Steve Travor, que, dentro do contexto, faz total sentido. A Mulher-Leopardo de Kristen Wiig é crível, apesar de ter um plano de fundo fraco ao querer expor as fragilidades de sua vida cotidiana. O megalomaníaco vivido por Pedro Pascal é exagerado e caricato, cheio de inseguranças e com um ponto fraco pouco convincente, ainda que conveniente, suficiente, porém, para roubar as cenas e ter quase tanto tempo de tela quanto a personagem-título.

De início, cheguei a me incomodar com o que parecia uma alta exigência de suspensão de descrença da trama, que resolvia alguns percalços de maneira bem simplificada, abusando de recursos como o ‘deus ex machina’, soluções de roteiro que simplesmente aparecem sem antes terem sido estabelecidas. Algumas até, sendo fan services espertos aos mais afeiçoados. Em certo ponto, porém, percebi que minha forma de enxergar, deturpada pelo momento atual, é que estava equivocada. Não são falhas do roteiro, mas sim concessões que o mesmo precisa realizar em prol do tom elevado de otimismo e fantasia, tornando a produção, na real, uma fábula não declarada, cheia de fatores impossíveis, como a própria heroína semideusa, e com uma bela lição a ensinar em seu desfecho, típicos desse tipo de conto.

E assim, deixando de lado a visão pessimista e desesperançosa que 2020 despejou sobre todos nós, fica clara a intenção do estúdio e da diretora, Patty Jenkins, em nos entregar um filme de tom tão otimista que beira o utópico. Enquanto os heróis brutamontes lutam com suas forças, armas e aparatos contra vilões poderosos, a luta da Mulher-Maravilha não é física, mas moral. E a vitória não é da figura da semideusa, mas do que ela representa. Empatia. Verdade. Confiança na humanidade. Mulher-Maravilha 1984 não é uma obra perfeita, nem almeja tal alcunha, abrindo mão de muitas coisas que a tornariam aquele filme que as pessoas queriam ver. Ao invés disso, torna-se um filme que as pessoas precisam ver, ainda que, talvez, não estejam preparadas. Assim como nós, em momentos difíceis, temos que abrir mão do que queremos em prol do que é preciso.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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