Maria e João – O Conto das Bruxas

Maria e João – O Conto das Bruxas

Releitura é uma das especialidades do cinema. Os contos mais tradicionais têm diversas versões nas telonas e, especificamente, o conto de fadas alemão Hansel and Gretel, conhecido por nós como João e Maria, é um dos mais recontados com, pelo menos, umas 8 adaptações, nos permitindo estilos bem diferenciados entre as produções.

A bem perceptível alternância dos nomes do título da obra mostra não apenas uma clara busca por diferenciação dentre as outras inúmeras adaptações, mas evidencia a clara intenção de protagonismo da nova trama. Aliás, vale dizer que essa não é a única intenção do filme como um todo, já que a produção, embora pequena e de baixo orçamento, soa, por vezes, pretensiosa. O maior exemplo disso é a fotografia bem elaborada e acima da média dentro do gênero. Como grande aliada, a direção de Oz Perkins também faz opções ousadas de ângulos e movimentos de câmeras em determinadas situações, dando um ar de sofisticação em um primeiro momento, que acaba, porém, sendo em vão ao decorrer do longa.

Na trama, Maria, interpretada por Sophia Lillis, é uma menina forte e com potencial para render uma personagem interessante, embora nunca explorado de maneira convincente pelo roteiro. Seu irmão menor, João (Samuel Leakey), ainda que tenha algumas tentativas de representar pontos chave no desenvolvimento da protagonista, acaba sendo apenas um condutor insatisfatório e sem grande relevância para a história no geral. A bruxa da atriz Alice Krige dá peso à antagonista que, infelizmente, não vai muito além de um visual interessante, sinistro e incômodo, ao passo que o roteiro, mais uma vez, subutiliza a personagem e torna suas motivações um tanto confusas e sem sentido.

Uma vez destrinchado que temos em Maria e João um bom trabalho técnico e personagens, em sua maioria, atrativos, mas que não funcionam tão bem, só nos resta aprofundarmos a falar do roteiro, já que ele próprio não se mostra preocupado em aprofundamentos. Com uma pegada mais voltada ao suspense psicológico, o filme parece beber na fonte da atual geração, muitas vezes chamada de neo-terror, que foca em criar uma atmosfera sufocante e utiliza de cunho artístico mais apurado. O grande problema da adaptação é mirar nesse objetivo sem construir um caminho que o leve até ele. O ritmo é lento, as cenas são longas, os atores fazem o que podem. E, ainda assim, por vezes, nada acontece. Com apenas 87 minutos, cada cena precisa ser aproveitada para garantir profundidade, desenvolver motivações e gerar uma decorrência de fatos. Fica claro, ainda, que a curta duração não é o fator de dificuldade para o roteiro, pois o pouco tempo é suficiente para entediar o público, dando a sensação de uma trama arrastada que partiu de uma premissa bem-intencionada, sem saber muito bem onde queria chegar. Até o uso de sustos gratuitos que não acrescentam valor para a trama se mostram deslocados, ainda que raros.

Depois de tanta construção mal realizada, cenas repetitivas e pesadelos que desmotivam o seguimento da história, Maria e João ainda consegue entregar um terceiro ato extremamente simplificado, com uma resolução preguiçosa e uma tentativa de explicação que não melhora a situação a qual chegamos ao fim do conto. Mantém-se a sensação de uma história potencialmente boa que se perde ao ser mal narrada.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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