Ameaça Profunda

Ameaça Profunda

Uma vez a cada período de alguns anos, surge uma nova tentativa de emular o sucesso de Alien (1979) e toda sua estrutura de trama, como já tínhamos visto no ainda recente Vida, de 2017. Agora, muda-se o ambiente, mantendo-se as características principais e, assim, temos Ameaça Profunda (Underwater, 2020) e seu grupo de perfuradores debaixo do oceano.

Tentando escrever seu nome no gênero e caminhar com as próprias pernas, o filme subverte por completo o primeiro ato, normalmente dedicado a apresentação dos personagens para maior afeição do público, e já inicia a trama direto ao ponto de conflito. Essa decisão adiciona dinamismo e foge do que estamos acostumados, servindo como uma boa ferramenta para prender a atenção logo nos primeiros minutos. O design de produção, responsável por criar a ambientação da base submarina, também tem fortes influências naquilo que vimos em Alien, com grandes corredores claustrofóbicos e áreas que vão sendo comprometidas, restando cada vez menos espaço para fugir.

No elenco, Kristen Stewart se encaixa bem ao personagem, entregando uma engenheira que precisa pensar friamente, resolver problemas e, principalmente, não demonstrar muita emoção, o que, talvez, seja sua especialidade. Vincent Cassel também vai bem e, mesmo com pouca oportunidade, desenvolve uma subtrama interessante para seu capitão. Os outros quatro atores não destoam, mas cumprem os papéis de coadjuvante necessários para esse tipo de trama.

Embora a direção de William Eubank seja suficientemente competente para conduzir o filme de forma satisfatória, principalmente no que diz respeito a explorar os ambientes e enquadrar as situações, algumas escolhas do diretor não escondem a sua falta de experiência. Um longa que se passa quilômetros de profundidade no oceano, em ambientes extremamente claustrofóbicos, com todos os perigos já conhecidos e, ainda, grandes inspirações nas obras de H.P. Lovecraft, já reveladas no trailer, deveria ter ingredientes suficientes para causar tensão e terror baseados em tais elementos. Sem saber explorar tudo isso, porém, Eubank apela, algumas vezes, para o conhecido facilitador de sustos. O jump scare. Sempre muito telegrafados, percebemos exatamente quando a trilha vai subindo e tentando deixar a tensão alta para, finalmente, sumir do nada e algo aparecer na tela acompanhado de um grande ruído. Como em todo filme de terror, pode funcionar algumas vezes, tornando-se enfadonho, porém, com a utilização exagerada. Outra decisão difícil que a produção tinha em mãos era o uso da iluminação na fotografia. Sabemos que as fossas oceânicas são totalmente escuras. Também sabemos que, por outro lado, muita escuridão em um filme pode atrapalhar a imersão de quem assiste e, optando por elementos de iluminação bem modestos, várias cenas se tornam de difícil compreensão e acabam nos tirando da trama.

Contando uma típica história de sobrevivência com elementos de ficção científica, o roteiro é simples e nada ambicioso. Não há inovações ou reviravoltas, sendo apenas linear e seguindo um padrão do gênero, o que dificulta que os outros valores da produção se sobressaiam, mesmo que sim, apresente algum valor de entretenimento. Os efeitos visuais são bons quando podemos vê-los, mas nada ajuda na criação de uma grande identidade ou personalidade própria, contribuindo para que o filme mergulhe, inevitavelmente, na fossa profunda do eminente esquecimento.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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