Star Wars: A Ascensão Skywalker

Star Wars: A Ascensão Skywalker

Não é todo dia que se encerra uma história iniciada há 42 anos. Não é todo dia que vemos uma saga chegar ao seu nono episódio cinematográfico, além de outros produtos derivados. Não é todo dia que uma franquia é capaz de reunir tantas gerações em torno de um só sentimento. E, por fim, não é todo dia que somos agraciados com a possibilidade de acompanhar um produto de tamanha importância dentro da cultura pop mundial. E é exatamente por essa magnitude que A Ascensão Skywalker já foi concebido com um enorme potencial tanto para o agrado quanto para o desagrado.

Essa nova trilogia de sequências, que deu início com o episódio VII, O Despertar da Força (2015), sempre foi um tanto controversa. Muitos fãs se perguntavam se era realmente necessário continuar contando aquelas histórias, enquanto outros desejavam isso há anos. O fato é que após a chegada do filme, dirigido por J.J. Abrams, a grande maioria dos simpatizantes gostou do trabalho da Disney em revitalizar a saga, trazer novos personagens e colocar os antigos protagonistas em posição de lendas. Não se pode agradar a todos, mas podemos dizer que foi um sucesso suficiente para garantir a trilogia. As coisas, porém, começaram a tomar rumos estranhos com o lançamento do episódio VIII, Os Últimos Jedi (2017).

Em Os Últimos Jedi, dirigido por Rian Johnson, os rumos da galáxia distante que conhecemos começaram a mudar radicalmente. A expansão da mitologia, o fim de personagens icônicos, a ousadia em pensar grande e a cinematografia digna de obra de arte elevaram o patamar da franquia e prepararam voos jamais vistos. Tal frescor, necessário para revigorar a terceira trilogia da série, foi, porém, massacrado pelos fãs puristas que não estavam preparados para mudanças radicais e não ficaram satisfeitos com as escolhas do episódio VIII. Apesar do sucesso com a crítica e de ser, claramente, um dos melhores filmes de toda a franquia, o apelo dos fãs foi grande o suficiente para abalar as estruturas da Disney, que na tentativa de resgatar o furor do episódio VII, resolveu retornar com J.J. Abrams no encerramento, o esperado episódio IX.

Toda essa contextualização se faz extremamente necessária para entendermos a dimensão e a motivação por trás de tamanha bagunça que esse episódio final apresenta. É espantoso o grau de simplicidade adotado para resolver grandes mistérios cultivados há tanto tempo. O próprio letreiro clássico de abertura já entrega situações que esperávamos ver durante a projeção, e não apenas ler e aceitar. A história é corrida, com desenvolvimento pífio e com muitos personagens descartados, além dos descartáveis. Tudo isso para ter tempo hábil de abrigar dois filmes em um, afinal A Ascensão Skywalker passa metade do seu tempo tentando desfazer, ou corrigir, tudo que vimos no episódio anterior. Em alguns momentos o roteiro integra tanto as alfinetadas de J.J. Abrams ao longa predecessor que soa nitidamente como uma birra entre diretores. Algumas dessas correções de curso chegam a ser patéticas e infantis.

Há mérito também, ainda que ofuscado, no episódio IX. A fotografia, apesar de bem mais tímida, ainda é um ponto alto. Os atores continuam entregando atuações críveis e emocionantes, até com os boicotes do próprio roteiro. Daisy Ridley e Adam Driver são, definitivamente, os melhores na tela. O personagem de Oscar Isaac ganha mais contornos de personalidade e profundidade. A saudosa Carrie Fisher, sempre bem, tem bom tempo em cena, mostrando que muitas coisas não tinham sido usadas anteriormente, entretanto deixando mais aparentes as fraquezas do roteiro em adaptar a história para suas cenas remanescentes. Alguns pontos de fechamento da história são satisfatórios, as pontas que precisavam ser amarradas, foram. Todas de maneira simples e esperadas.

Verdade seja dita, os estúdios responsáveis por esse episódio final se deixaram levar demais pelo clamor do público, ao invés de se manterem fiéis a história que tinham planejado. Abandonaram toda a coragem e inovação trazida em Os Últimos Jedi e adotaram, novamente, uma postura conservadora, embebida em referências e fan services, jogando na projeção, quase que aleatoriamente, tudo que os órfãos do filme passado queriam ver e, ao contrário de mirar alto, o filme mira no caminho fácil, seguro, sem impressionar ninguém, mas satisfazendo a vontade de muitos. A Ascensão Skywalker encerra 42 anos de enredo com os pés no chão, com momentos planejados para emocionar, porém sem força para empolgar ou fazer refletir.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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