Coringa

Coringa

Após vários esforços, no mínimo, contestáveis da DC Comics, juntamente com a Warner Studios, de criar um universo compartilhado de seus heróis no cinema, o fracasso inevitável parece ter levado as produtoras a pensar fora da caixa e partir para histórias isoladas dos personagens e, portanto, mais autorais, sem necessidade de conexão com outros materiais.

Se por um lado a ideia soa com frescor no cenário atual, começar essa nova caminhada trazendo um filme protagonizado pelo maior vilão dos quadrinhos poderia ser não-convencional demais e flertar com um desespero ocasionado pela falta de criatividade dos roteiristas da DC, apelando para uma espécie de caça-níqueis nas telonas. Felizmente, o projeto caiu nas mãos certas e o diretor e roteirista Todd Phillips conseguiu subverter a complexa situação que enfrentava.

Apesar da ótima equipe envolvida no longa, confesso que a desconexão total do mesmo em relação com o material fonte, no caso, os quadrinhos, me preocupou muito desde o início da produção. Da mesma forma em que eu esperava um filme de grande calibre que não decepcionaria, temia pelo afastamento do personagem com o verdadeiro Coringa que conhecemos, transformando-o, apenas, em um bom enredo sobre a loucura que consome um homem que acaba se tornando um criminoso vestido de palhaço.

Hoje, lançado e devidamente assistido, paira a tranquilidade em saber que, no geral, a produção foi tratada com todo o esmero necessário para não só passar longe de ser apenas um caça-níquel cinematográfico, muito além disso, porém, foi concebido como uma obra de arte pretensiosa o bastante para aspirar um lugar na memória do público como história definitiva de um personagem de origens tão incertas. O Coringa de Todd Phillips, interpretado por Joaquin Phoenix, não foi feito por acaso, mas sim para chamar a atenção e chocar, além de causar mal-estar e muita reflexão no público. Já em relação a fidelidade, ou falta dela, com o cânone dos quadrinhos, o assunto é mais subjetivo e delicado. Ainda que eu pregue a liberdade criativa para os filmes que não necessitam seguir normas estabelecidas por outras mídias em suas adaptações, me incomodei bastante com detalhes cronológicos que o longa traz, tal qual a idade de muitos personagens, que não seriam compatíveis nem com a sugestão de uma futura rivalidade com um certo herói vestido de morcego, entre outras estranhezas.

Pela ótica correta de um filme independente que é, a produção tem vários méritos a serem considerados. A atuação monstruosa de Phoenix é digna de uma indicação ao Oscar, que é difícil cravar visto as polêmicas que a crítica vem trazendo à tona, o que pode dificultar a campanha na Academia. Independente disso, o ator entrega uma fisicalidade impressionante aliada a um psicológico totalmente imprevisível e desesperador. Com a direção milimetricamente orquestrada por Phillips, os enquadramentos, sequências, cortes e a trilha extremamente contundente são fatores que tornam Coringa uma experiência profunda e difícil. A excelência do diretor em passar exatamente o que o roteiro propõe nos coloca na controvérsia posição de empatia com o protagonista em que nos pegamos sofrendo por suas desfortunas e desconfortáveis com o que assistimos, desejando que tudo aquilo acabe antes que o pior aconteça. Mesmo sabendo que o pior sempre acontece.

É justamente nessa relação estreita com o público que nascem as tais polêmicas supracitadas. Coringa tangencia perigosamente com os limiares do aceitável para um produto de tamanho apelo com o grande público. Ao dar o protagonismo para o vilão e fazer dele o dono da trama, o limite entre permanecer com o personagem no patamar da vilania ou cruzar a linha da transformação para o anti-herói é muito tênue. Apesar de o roteiro se esforçar para deixar sutilmente esclarecido que não se trata de um assunto político nem que apoia as atitudes do protagonista, a falta de interpretação, a má interpretação ou, simplesmente, o egocentrismo dos ideais inerente da sociedade dos dias de hoje pode ser suficiente para projetar no filme um ponto de partida para o anarquismo. A arte, como um todo, bem como o cinema inserido nesse conceito, sempre foi veículo tanto de entretenimento quanto de provocação e manifestação. Particularmente, não acho que seja obrigação do filme um comprometimento com a responsabilidade social. Trata-se de uma obra para maiores de 18 anos que, teoricamente, deveriam ser responsáveis o suficiente para interpretar a história mostrada na tela, não podendo ser responsabilizada pela sociedade psicologicamente fraca e decadente que vivemos.

O fato é que Coringa transcende as qualidades de uma excelente execução cinematográfica e ganha o público com muitas discussões importantes, o que por si só, já é prova incontestável do seu acerto no estudo de personagem proposto. Com uma entrega completa por parte dos realizadores e, principalmente, do ator Joaquin Phoenix, a origem do vilão marcará presença para sempre quando o assunto for o palhaço do crime.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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