Vidro

Vidro

O encerramento de uma das mais curiosas trilogias do cinema. Não só por sua temática que, apesar de parecer mais uma franquia de super-heróis, subverte o gênero e explora outros dramas, mas também pela sua origem. Começando há 19 anos, com Corpo Fechado, ninguém tinha ideia de quando essa história poderia ganhar uma continuação, ou se ganharia, realmente. Eis que vários filmes do diretor M. Night Shyamalan depois, em 2016, Fragmentado chega de fininho e, sem avisar ninguém, revela-se a tão aguardada sequência prometida. Tão logo, Vidro, o capítulo final, foi anunciado para fechar o ciclo.

Embora funcione por si só, Vidro, definitivamente, ganha entornos muito mais dramáticos quando acompanhado dentro de sua trilogia. É fácil perceber que cada um dos três longas recebeu o título baseado em um personagem da sua trindade. Não apenas isso, mas cada um deles tem seu próprio gênero cinematográfico, correspondendo ao seu protagonista. Corpo Fechado era um suspense mais policial, pé no chão. Fragmentado flertava com o terror e o sobrenatural, enquanto Vidro, se assume como um filme de super-herói. Com os personagens já devidamente apresentados e desenvolvidos, sobra tempo para aprofundar suas questões. O filme utiliza a nova personagem, Dra. Ellie (Sarah Paulson) para entregar a nós, espectadores, e aos próprios protagonistas o benefício da dúvida ao demonstrar seus estudos sobre um suposto transtorno que faz pessoas regulares acharem que são extraordinárias. O roteiro não tem pressa, demora a desenvolver a trama e soa arrastado no segundo ato, mas não à toa. O texto é bem reflexivo e tem conteúdo em cada linha de diálogo ou pelos elementos em cena, graças a direção meticulosa de Shyamalan, abusando da fotografia inspirada para trazer elementos dos quadrinhos para a tela.

No campo das atuações, infelizmente Bruce Willis perde um pouco de espaço até por conta de seu David Dunn introspectivo. O ator se sai bem em reprisar o papel, mas seu arco é o mais simples e, por isso, com menos tempo de tela. James McAvoy traz de volta o belíssimo trabalho iniciado em Fragmentado, mas eleva sua potência. As personalidades do seu personagem assumem o corpo com transições, muitas vezes, suaves, demonstrando a habilidade do ator em demarcar cada uma delas com trejeitos e expressões únicas, ou ainda, maior fisicalidade em algumas situações. E ainda que seja o personagem título da obra, Samuel L. Jackson arrasador e arquiteto de, basicamente, tudo que vemos em cena, acaba com espaço também reduzido em detrimento da complexidade carregada por McAvoy.

Tantos anos de preparação e mais dois atos dessa epopeia de Shyamalan, porém, criam um ambiente de muita expectativa para o desfecho da história. Se por um lado isso é um mérito louvável do diretor e roteirista que conseguiu criar uma sólida base de fãs, por outro, é continuar escravo de sua própria fórmula, sendo totalmente dependente de um final apoteótico para entregar total satisfação ao público. Todo filme autoral de Shyamalan é conhecido pela reviravolta que muda a perspectiva da história, desde que o diretor ficou famoso por O Sexto Sentido (1999). Sendo assim, dessa vez, em Vidro, o diretor que construiu um conceito excepcional não só ao longo dos outros filmes, mas também durante seu próprio capítulo final, tem problemas em realizar o fechamento das tramas. O terceiro ato deixa para trás o suspense, as dúvidas, a curiosidade aguçada até aqui e, mesmo apresentando um excelente contexto quando aborda a subversão de heróis e suas histórias em quadrinhos, inovando no conceito e causando reflexões pelo seu subtexto, acaba soando simplificado demais. A resolução para tamanha filosofia e reflexão é apressada e perde um pouco do peso esperado após toda a preparação da “fórmula Shyamalânica”.

Finalizando mais de 18 anos de espera pela conclusão, Vidro deixa claro que o diretor tinha essa história em mente desde sempre, fecha pontas deixadas anteriormente e dá a conclusão dos arcos para os três personagens principais, sendo algumas dessas conclusões satisfatórias, outras nem tanto. Refém de seu desfecho e reviravoltas, acaba sendo um filme que divide opiniões, ainda que isso não manche a reputação dessa trilogia diferenciada que marca um ponto fora da curva a ser lembrado quando falamos do subgênero de heróis.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!