Atômica

Fim dos anos 80, Guerra Fria, espionagem e Charlize Theron. Os elementos que compõem Atômica já falam muito por si só antes mesmo de conferirmos o filme. Acrescente a essa mistura o diretor em ascensão David Leitch, que co-dirigiu o fenômeno atual John Wick e tente imaginar o resultado disso tudo.

Apesar de ser um filme de ação honesto, o roteiro importa e muito no desenvolvimento da trama. Passando-se poucos dias antes da queda do muro de Berlin, a história coloca a espiã Lorraine (Theron), que trabalha para a coroa inglesa, em busca de uma lista com nomes de todos os agentes duplos das várias nacionalidades com interesses na Guerra Fria. Não é um enredo inovador, mas o filme já começa a mostrar a que veio pela execução da narrativa, que se passa em flashbacks, contando com certo dinamismo entre as lembranças e os momentos atuais.

Se há, porém, algo que Leitch já provou saber fazer, desde seus mais de 80 trabalhos com dublê em Hollywood, até sua condução de John Wick, é ação. É visível que as primeiras cenas de Atômica são levemente mais engessadas, com coreografia demarcada demais, mas a qualidade melhora a níveis impressionantes ao passar da trama. Brigas, perseguições, tiros, facas, seja como for o tema da violência, as cenas mostram peso das ações e se preocupam com as consequências geradas aos personagens, inclusive Lorraine, que também muito se machuca durante a missão. Não só a coreografia evolui como toda a fotografia acompanha a beleza do modo de filmar que Leitch propõe. Atômica é estiloso e tem uma direção de arte inspiradíssima, com muito neon, cores e composições de cena tiradas direto dos anos 80. Meio a toda essa loucura, o filme ainda consegue mesclar de forma inesperada uma trilha incrível recheada de músicas que, da mesma forma que embalaram a época, agora dão o ritmo das cenas, com direito a créditos finais regados a Under Pressure, do Queen e David Bowie.

Toda essa preocupação estética pode ser uma receita perigosa quando, por exemplo, os atores não seguram seus personagens. Felizmente, a escolha de elenco acertou em trazer Charlize para o papel principal. A atriz é imponente, fria e observadora em tela. Demonstra nuances e fraquezas nos momentos certos e impõe todo o respeito esperado da personagem, esbanjando talento, beleza e saúde no auge dos seus 42 anos. James McAvoy também dá vida a um agente misterioso e o faz com segurança, deixando público e crítica cada vez mais à vontade com suas atuações. Destaque também para a argelina Sofia Boutella, que inicialmente parece ter uma relação forçada com a protagonista, mas transmite naturalidade com o passar das aparições e alcança uma química incandescente com Charlize.

Ainda que beba muito da fonte dos longas de ação oitentistas, Atômica tem qualidade técnica muito afrente de suas inspirações, impressionando pela fotografia, coreografia e planos longos que vislumbram planos sequência, com ação ininterrupta por vários minutos. A sede de grandeza da obra como um todo ocasiona apenas um tropeço de roteiro que tenta ser maior a cada tomada, gerando demasiadas reviravoltas que causam um vai-e-vem com potencial incômodo ao término. Nada que estrague essa ótima experiência em tela grande.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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