O Círculo

O Círculo

Distopia. Exagero da realidade. Abuso de tecnologia. Necessidade de estar online todo o tempo. Falta de privacidade. Tudo isso pode parecer muito Black Mirror, série britânica que ficou famosa por tratar de tais assuntos com um impacto incrível nos espectadores, mas não, não é disso que estamos falando agora. O Círculo parece beber dessa premissa para vir ao cinema dialogar com o público dessa mídia.

Em um mundo que eleva ao máximo o uso das redes sociais, a personagem Mae, vivida por Emma Watson, não é das mais conectadas até conseguir um emprego na maior empresa de tecnologia daquele universo, O Círculo. Sendo também considerada com o melhor lugar para se trabalhar, a empresa oferece praticamente tudo que um funcionário pode desejar, mas a um custo alto: privacidade. A ideia, ainda que não seja tão original nos tempos atuais, é boa. Todo o escopo apresentado pelo filme chega a dar impressão de uma alta complexidade de roteiro com grandes chances de deslanchar. Aí começam a aparecer os problemas.

Estruturalmente, o longa não demora a desapontar pela rápida progressão dos acontecimentos, deixando para trás várias questões levantadas, porém pouco desenvolvidas. A evolução da personagem principal é rápida demais, causando estranheza em várias atitudes que contradizem seus princípios. Mae muda sua visão das coisas de forma abrupta, ainda que seja insinuada uma passagem de semanas ou meses. Essa forma de agilizar a história não permite a criação de relação entre público e personagens, ainda mais que vários deles somem por completo das cenas e só retornam em momentos de real necessidade de narrativa, apenas como artifícios que fazem a engrenagem do filme se manter funcionando. Ou quase isso. Não espere ver muito do ator John Boyega, por exemplo.

Remando contra a maré, Tom Hanks talvez seja o ponto mais interessante entre todos, dando a vida a Bailey, típica figura pública responsável pela “lavagem cerebral” que convence as pessoas a abrir mão de suas privacidades a favor do conhecimento coletivo. Mais uma vez, porém, não passa disso e não temos oportunidades de explorar mais camadas do personagem ou conhecer suas reais motivações, visto que, vale repetir, o longa não se dispõe a dar o tratamento merecido aos assuntos que tenta explorar.

Ainda que, no fim das contas, o discurso que move o filme seja realmente pertinente e atual, seu maior vilão é a própria montagem atrapalhada e roteiro sem profundidade, tornando-se uma obra para agradar a poucos. Se a discussão pode render boas reflexões, poderia atingir muito mais a consciência dos espectadores se conseguisse polir a temática em uma história mais focada em poucos tópicos, como o também atual e distópico Nerve (2016). Mesmo que continue parecendo um grande episódio de Black Mirror, O Círculo, certamente, não figuraria entre os melhores da série.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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