Assassin’s Creed

Assassin’s Creed

assassinscreed_posterNos tempos em que jogos de video game quase não tinham histórias, colocando o jogador para correr, pular, dar tiros logo de início, começaram a surgir as primeiras adaptações para o cinema em que os roteiristas usavam o material dos games apenas como base, mas tinham muito trabalho de invenção para dar um escopo à trama. Atualmente, os jogos mudaram muito e prezam por uma narrativa tão envolvente e complexa que parecem até melhores que muitas coisas que assistimos por aí. Assassin’s Creed é um desses games que aposta em uma história rica, pronta para ser transportada para o cinema.

Conhecendo a abrangência do público das telas grandes, o filme começa com uma preocupação de situar a todos sobre o universo explorado. Assassinos, Templários, dar um passado ao protagonista Callum Lynch, vivido pelo também produtor Michael Fassbender, e explicar didaticamente o funcionamento da máquina Animus, construída pelos cientistas da Abstergo, responsável por levar o usuário a reviver suas memórias genéticas, ou seja, memórias da vida de seus ancestrais. O conceito, até aí, totalmente retirado do material original, é muito bom. Até as mudanças visuais idealizadas pelo diretor Justin Kurzel para a Animus são bem vindas e trazem dinamismo para as cenas de regressão ao passado que se mesclam com vislumbres do personagem no presente.

assassins-creed-animus

Quando Lynch se posiciona na Animus e somos jogados na Espanha do século XV, o filme muda de figura. A fotografia é muito agradável e o visual é muito parecido com o conhecido dos jogos. A movimentação dos personagens correndo pelos telhados, escalando as construções e lutando contra seus inimigos é excelente, mesmo que o diretor tenha optado por uma filmagem confusa da ação, com muitos cortes que dificultam entendimento das cenas mais movimentadas. Os elementos saídos diretamente do jogo são um deleite a parte para os fãs, como o salto de fé. Inclusive, é muito importante ressaltar a coragem dos produtores em rodar tais situações em espanhol, diferente da maioria dos filmes que vemos o inglês reinar em todas as partes do universo.

Mesmo com tanta boa vontade e tantos bons conceitos apresentados, Assassin’s Creed pode ser um filme resumido por suas escolhas erradas. Se o passado deveria ser o foco da trama, os produtores, por algum motivo, resolveram inverter os valores. A grande maioria do longa se passa no tempo presente, dentro da empresa Abstergo, cheia de corredores vazios e pessoas desinteressantes. Até a trilha sonora escolhida para ambientar o presente soa estranha e incomoda. A cientista Sofia, vivida pela atriz vencedora de Oscar Marion Cotillard, parece a personagem mais interessante, embora precise repetir seus discursos para se reafirmar várias vezes durante a projeção. Ainda assim, tem motivação turva e uma conclusão confusa. Já o artefato que todos procuram, a Maçã do Éden, também com sua finalidade repetida à exaustão, não apresenta efeito prático e não convence nada, principalmente aos não conhecedores dos games.

Assassins-Creed-scene

Outras ideias que parecem erradas são usadas como recurso de roteiro para garantir continuidade da história. Um exemplo é a concessão que o vilão Rikkin (Jeremy Irons) dá a Lynch para reencontrar seu pai que, obviamente, contaria toda a verdade por trás dos planos centrais do filme. Sem contar a suspensão de descrença que o roteiro sugere quando a segurança da Abstergo, que, relembrando, trabalha com prisioneiros assassinos, não conta com armas em seu arsenal. Também quando personagens cruzam a Europa de uma cena pra outra sem terem condições para tal, ou ainda quando recém formados assassinos escalam prédios modernos de Londres em pleno 2016.

Por mais que tenha sido retirado de um material original incrível e tenha disposição para se transformar em blockbuster, Assassin’s Creed não conseguiu fugir do legado dos filmes feitos a partir de jogos que acabam pecando pelas más escolhas da produção. Se for, realmente, o início de uma franquia, como prometido, ainda precisa melhorar muito na execução dos seus conceitos.

2

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *