O Contador

O Contador

posterApós escrever e dirigir obras premiadas, Ben Affleck ainda percorre o sonho de estampar uma franquia reconhecida com seu rosto. Com essa proposta, O Contador traz uma mistura de vários gêneros costurados por um roteiro bem trabalhado.

Na trama, Affleck dá vida a um personagem diagnosticado com alto grau de autismo, que teve uma infância difícil por conta do pai incompreensivo, sendo forçado a levar uma vida sem distinções que acomodassem melhor sua síndrome. Infância esta, mostrada através de flashbacks esporádicos que, praticamente, explicam o comportamento dele, já adulto, a cada momento em que o roteiro julga necessária uma justificativa do passado para dar mais embasamento à história. Tais alternâncias entre presente e passado criam dinamismo ao filme e, até mesmo, suspense ao não revelar toda a narrativa de uma vez.

Em paralelo, o elenco coadjuvante, que conta com J. K. Simmons, Anna Kendrick e Jon Bernthal, adiciona mais densidade à trama. Com seus caminhos se entrelaçando em busca do habilidoso contador, aos poucos as informações se encaixam e começam a fazer sentido, brincando com o entendimento do espectador que é levado a rever os conceitos sobre o caráter dos personagens ao decorrer da projeção. Essa segmentação do roteiro aliada ao clima de suspense, com cenas de ação, tendo um tema dramático como centro é uma arriscada aposta, porém. A cadência do filme acaba sacrificada pela própria pretensão. Alguns momentos se arrastam e tornam o filme lento. Embora essencial para prender a atenção dos que vão em busca do sentimento de ansiedade, incerteza e expectativa, o público mais impaciente pode se sentir entediado com o início desconexo e um tanto vagaroso.

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A medida que se desenrola, os perigos da carreira de um contador brilhante que presta serviços para as mais altas máfias do mundo começam a evidenciar a real intenção da história. A ação é fria, sóbria e pontual. O que funciona muito bem. O diretor Gavin O’Connor demonstra clara intenção da criação de um estilo próprio, uma identidade, filmando com lucidez e simplicidade, adicionando, quase inconscientemente, alívios cômicos risíveis em instantes isolados. Falha, porém, em convencer sobre a transformação daquele menino problemático em homem especialista em quase tudo, usando, apenas, a dificuldade de socialização e pequenos outros sintomas como muleta para nos lembrar que o protagonista é autista.

As possibilidades de crescimento dos coadjuvantes e as brechas deixadas pelo roteiro são sinais de que O Contador foi idealizado com esperança de continuação. Contudo, amarra bem os pontos cruciais e exerce, também, de forma satisfatória, a função de projeto único.

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Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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