Birdman

Birdman

Ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

birdmanposterSe a indústria cinematográfica passa por um período de constante crescimento e agitação, deve muito disso a um subgênero da ação e aventura adaptado de diferentes literaturas como os quadrinhos, principalmente. Filmes de herói atraem crianças e adultos do mundo todo ao cinema, contratam atores renomados e glamourizam seus protagonistas. É exatamente dessa popularidade que nasce Birdman, querendo se destacar por remar contra a maré.

Procurando retratar a realidade, o filme escala Michael Keaton para viver um ator decadente que, após dar vida ao herói título em uma trilogia de sucesso, só viu sua fama e popularidade esvaírem devido à dificuldade de interpretar bons papéis pós-Birdman. Curiosamente, mas não por acaso, é a representação de Keaton, outrora Batman de Tim Burton (1989).

A busca de Riggan Thomson (Keaton) pela redenção de sua carreira como ator, na eufórica tentativa de, também, escrever e dirigir uma peça na Broadway, leva o público diretamente aos bastidores do teatro. A preparação do casting, os conflitos, as reformulações do texto, os improvisos. Tudo está lá. A neura pela provação de Thomson, para o público e, ainda mais relevante, para ele mesmo, faz do ator um delirante. Birdman, ainda que há mais de vinte anos sem ser interpretado, não saiu de sua cabeça e o acompanha, conversa com ele. Esse Alter ego serve como mecanismo de expor seus sentimentos, suas loucuras, deixar transparecer o que passa por sua cabeça.

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Mostrando diversas vezes os ensaios para a peça escrita por Riggan, pode-se dizer que até mesmo o roteiro é um ensaio para a loucura – lembrando, em diversas situações, Cisne Negro (2010). A escolha, do diretor Alejandro Iñárritu, pela filmagem em plano sequência é só mais uma das metalinguagens presentes no longa, simulando a própria peça teatral em que os atores reais estão inseridos, sem cortes (aparentes), com uma única câmera que corre atrás dos personagens e observa, curiosa, os cenários, dando a impressão de agir como um espectador a beira do palco. O estilo de filmagem, porém, embora seja totalmente condizente à proposta, incomoda na primeira metade da projeção, até que os olhos de quem vê se acostumem.

Como não poderia deixar de ser, as atuações sustentam as longas quase duas horas de filme. Coadjuvantes como Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts e Zach Galifianakis têm seus momentos de brilhantismo, enquanto Michael Keaton deixa, realmente, bem longe aquele Batman de duas décadas passadas e se entrega ao melhor papel dramático de sua carreira. Os efeitos visuais são pontuais e bem executados, sobretudo os cortes, realizados com primor, sem transparecerem. A trilha sonora ajuda, e muito, na condução, visto que, como todo o resto, também se aplica a metalinguagem proposta, destacando-se pela bateria barulhenta que demonstra a “bagunça” presente no interior do protagonista.

Birdman

Além da crítica à indústria, à Hollywood e ao modo de vida dos atores, estampada desde o título, sobra espaço para a sátira à realidade atual, redes sociais, instantaneidade da informação vinculada na internet e relevância de perfis públicos. Nem os críticos escapam de serem ironizados pelo roteiro.

Com toda essa carga de análise e julgamento dos próprios métodos que Iñárritu deposita no enredo, a densidade que a trama adquire faz dela, também, a maior inimiga do filme. Por vários momentos o desenrolar se arrasta sobre seus excessos e Birdman torna-se um tanto difícil e indigesto de se assistir.

Como uma segunda faceta, A Inesperada Virtude da Ignorância valoriza o empenho, a inquietante procura dos atores por papéis que os prestigiem, atuações convincentes que garantam aprovação do grande público, bem como expõe a ideia que corre pelo submundo dos artistas de que o teatro evidencia uma boa atuação. Por tratar de assuntos tão internos, com tanta versatilidade e metalinguagens, é que Birdman se torna tão forte indicado ao Oscar de melhor filme.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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