Cinquenta Tons de Cinza

Cinquenta Tons de Cinza

A arte da adaptação está presente no cinema desde o início das projeções. Não é novidade alguma que sucessos de outras mídias sejam transferidos para as grandes telas e Cinquenta Tons de Cinza é mais um exemplo disso. Ainda que fidelidade seja uma característica importante nesses casos, julgar o filme apenas como um filme também faz parte do processo, uma vez que grande fatia do público é atingida pelos respingos do barulho causado pelo best-seller e procura assisti-lo mesmo sem tê-lo lido.

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Pensando na abrangência do cinema e na quantidade de pessoas que seriam atraídas pela história de Christian Grey (Jamie Dornan) e Anastasia Steele (Dakota Johnson), o roteiro que tinha tudo para ousar, inovar em um blockbuster, impressionar e, por que não, chocar o mundo, sofre do processo hollywoodiano de familiarizar suas tramas, torna-las plausíveis e abrandar as situações. Tratar o comportamento de Grey como um transtorno, e a necessidade de traumas para justificar suas atitudes são exemplos da incapacidade de tratar o assunto sem preconceitos, com naturalidade.

O desenvolvimento de Cinquenta Tons de Cinza é um tanto preguiçoso. Apaixonar-se por Grey pode não ser algo tão difícil, haja vista que ele é, praticamente, um Bruce Wayne do seu próprio Batman. Milionário, poderoso, famoso, dono de um império. Estereótipo fácil para atrair atenções. O que não fica claro, porém, em momento algum, é o motivo que Christian tem para se interessar por Anastasia. Ela é desajeitada, desarrumada, estudante de literatura inglesa e tem um emprego sem tanto glamour, além de ser um tanto apática e submissa por natureza, aceitando imposições sem motivos aparentes. A união dos personagens parece acontecer apenas por vontade da autora.

A relação que cresce entre os protagonistas é gradual e o Sr. Grey tem momentos bem didáticos quando começa a revelar suas intenções. O problema é que não temos tanta história para ser contada para justificar as longas duas horas de projeção – sem fim, a propósito.

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Com atuações medianas, que parecem ser um tipo de padrão entre os filmes do gênero, Johnson e sua Anastasia, principalmente, cansam os expectadores com suas caras e bocas. Gestos simbólicos e mordidas de lábios chegam a criar um clima até cômico. Vale ressaltar, aliás, que ao longo de toda a trama surge uma graça, talvez pela situação ridícula que Anastasia se permite estar, talvez pelo constrangimento, mas o gênero tangencia demais as comédias românticas e, por vezes, tira risadas do público.

As mãos da diretora Sam Taylor-Johnson pouco são sentidas, mas demonstram identidade nas cenas mais quentes, com cortes precisos e ótimos ângulos, com fotografia bem executada, na proposta leve do filme, é claro, responsável por transformar o que deveria ser sádico em algo suave e romântico.   A trilha sonora é inspirada e, inclusive, torna-se melhor e mais forte que a própria cena que se vê na tela.

Exceto pelo grande número de nudez e algumas cenas de sexo, Cinquenta Tons de Cinza se resume a um romance daqueles que só se interessam em mostrar um conflito de casal com pensamentos, aparentemente, distintos que vão se acostumando ao outro em nome da relação, sem se aprofundar, exatamente, em algum tema psicológico de maior importância, que trata o homem como ser superior e problemático enquanto a mulher, submissa, tem o papel de solucionar o problema do parceiro.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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