O Lobo de Wall Street

O Lobo de Wall Street

Não é de hoje que a parceria entre o diretor Martin Scorsese e o ator Leonardo DiCaprio vem rendendo ao público bons filmes. Chegando ao quinto longa juntos, precedido por Gangues de Nova York (2002), O Aviador (2004), Os Infiltrados (2006) e Ilha do Medo (2010), O Lobo de Wall Street (2013) já pode ser considerado como a obra definitiva da dupla no cinema.

The Wolf of Wall Street

A primeira coisa que se deve entender em O Lobo de Wall Street é que não se trata, apenas, de uma história sobre o corretor de ações da bolsa de valores, Jordan Belfort (DiCaprio). Claro, Belfort é o protagonista e grande responsável pela trama, porém muito além disso, o foco é a grande sátira ao estilo de vida que o final dos anos 80 trouxeram àqueles que pegaram carona na ascensão do negócio de ações. O grande tema tratado é o exagero, não só trazido pelo dinheiro movimentado nas transações ou pelas drogas e prostitutas que ele pode comprar, mas também em como isso modifica a vida de toda uma geração.

Jordan Belfort é um jovem estagiário da bolsa de valores. Recebendo conselhos da pessoa certa (Matthew McConaughey) – ou nem tão certa – consegue o emprego em Wall Street. Com grande azar, seu primeiro dia foi, justamente, na famosa Black Monday, 1987, em que a bolsa teve a maior queda desde a crise de 1929, o tornando, novamente, um desempregado. Buscando novos ares, encontra emprego em uma pequena empresa, longe do glamour de Wall Street, vendendo ações que ele mesmo considera um lixo. É nesse “lixo” que Belfort encontra o que precisava pra ficar rico: alta comissão. Com um novo amigo e reunindo velhos conhecidos, todos mestres da enganação, é fundada a Stratton Oakmont, empresa a qual ganha tamanha importância que, inclusive, substitui a vinheta tradicional da produtora Paramount no início da projeção, criando uma piada metalinguística.

Lobo

A narrativa usada por Scorsese é interessante, me parecendo muito com a forma apresentada em Clube da Luta (1999), onde o protagonista introduz o público à trama, conta os fatos, trilha a história e a segue de acordo com sua vontade, ou melhor, sua visão. Esse fator é deveras importante, pois situa o espectador tanto quanto o confunde. Em alguns momentos fica difícil distinguir o que foi, de fato, um acontecimento da vida agitada de Belfort das alucinações e viagens criadas pela mente do, cada vez mais, viciado em drogas e sedativos. Isso é evidenciado em cenas que ou mudam de curso de acordo com a lembrança do narrador, ou precisam ser repassadas para nos mostrar como realmente se sucederam.

Com classificação indicativa de 18 anos, O Lobo de Wall Street já deixa claro, em seus primeiros momentos, o motivo de ter recebido a mais alta censura do cinema. Há muito uso de drogas e muitas cenas de nudez e sexo. A medida que a Stratton Oakmont cresce, enriquecendo os sócios, as festas e comemorações vão ganhando mais características de bacanais gregos, elucidando, novamente, os exageros. Tais exageros são capazes de revoltar uma parcela do público menos disposta a se entregar à trama e desfrutar das loucuras da vida do personagem, porém. Certamente o direcionamento do filme não é para os mais puritanos, muito embora, em momento algum, seja feita a tentativa de enobrecer a vida exacerbada e arrogante levada pelos personagens, mas apenas ilustrar como o dinheiro fácil corrompeu a mente dos viciados na riqueza.

Como não poderia deixar de ser, Leonardo DiCaprio apresenta uma de suas mais surtadas atuações, faz caras e bocas, sofre overdoses, se arrasta pelo chão, grita e dá várias palestras de motivação para seu pessoal, outro ponto forte de sua atuação e do filme. Vale dizer que DiCaprio é forte concorrente à estatueta dourada. E por falar em Oscar, outro indicado, Jonah Hill, se sai perfeitamente no papel do melhor amigo do protagonista, merecendo a indicação como ator coadjuvante.

Considerada como comédia, a obra-prima de Scorsese não faz humor por fazer, não força risadas. O que acontece, entretanto, é a mais natural demonstração de uma vida deturpada que, naturalmente, causa o riso no simples prazer de acompanhar os altos e baixos dos envolvidos. Embora não cultue o exagero, faz dele o motor que move o filme como um drama da vida real, ficando mais próximo do que podemos chamar de tragicomédia. Ainda que longo, com seus 180 minutos, O Lobo de Wall Street diverte e entrega um clássico de primeira linha.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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