O Homem de Aço

O Homem de Aço

Depois de dois grandes sucessos com os filmes da longínqua década de 70 e outros dois extravagantes em seguida, todos vividos por Christopher Reeve, o primeiro herói do mundo demorou a dar as caras novamente nas grandes telas, reaparecendo erroneamente com Superman Returns, interpretado por Brandon Routh, em 2006.

Com tais fracassos na continuação da franquia, Superman precisava passar por uma drástica transformação. Precisava de uma cara nova, uma história mais atual, abrangente, que deixasse de suprir somente as necessidades da época de seu nascimento, há 75 anos. Precisava.

Man of Steel assume o encargo de amparar os fãs órfãos da trilogia Batman no universo DC, tarefa dificílima, que conta, porém, com Christopher Nolan na produção, diretor dos filmes do Homem-Morcego. Escolher o Homem de Aço para começar uma nova fase no cinema pode ter soado ruim no início, mas a ideia sempre foi buscar o reboot para melhor contextualização do kryptoniano e devolver a ele o título de maior herói da Terra.

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O filme é ousado. De início, dá o que talvez seja o maior foco na história do planeta Krypton já mostrado até então. O roteiro mexe no cânone do personagem, vai fundo, muda detalhes importantes. O visual de Krypton é bastante alienígena, moderno e exclusivo, mostrando detalhes da sociedade, vestimentas, arquitetura e ciência. Tudo é bem diferente do que estamos acostumados e isso pode causar estranheza aos saudosistas.

Jor-El, vivido por Russel Crowe, tem papel fundamental na compreensão das origens de Kal-El. A propósito, todo o elenco de apoio ao filme merece destaque pelas excelentes atuações, como Amy Adams (Lois Lane), Diane Lane (Martha Kent), Antje Traue (Faora-Ul), Kevin Costner (Jonathan Kent), Laurence Fishburne (Perry White) e Michael Shannon, pela brilhante e pirada interpretação do mais profundo General Zod, que tem todas as motivações para ser o inimigo, o verdadeiro vilão sem opção, nascido e criado pelo sistema kryptoniano para lutar pelo objetivo que herdou em seu nascimento. Já Henry Cavill, que havia apresentado interpretações medianas anteriormente (no filme Imortais, de 2011, como exemplo), surpreendeu dando vida ao novo Superman. Além da preparação física do ator, notável pelas cenas sem camiseta que chegam a tirar suspiros das mulheres e até constranger os homens, Cavill deu emoção e humanidade ao herói, convencendo em todos os momentos e se transformando, realmente, em adolescente na cena que ilustrou parte do passado de Clark.

A cronologia utilizada para contar a história ganha características do produtor Nolan, também utilizada pelo diretor Zack Snyder em outras obras, como Watchmen. A forma não linear de construir o roteiro ajuda a tornar as coisas mais movimentadas, mescla os momentos importantes da confusa infância de Clark com suas viagens pelo país quando já adulto. Esse dinamismo, mesmo que simples, contribui na originalidade dos acontecimentos, alterando a rota das coisas quando os espectadores pensam que já sabem o que acontecerá a seguir.

À medida que os fatos se sucedem, várias referências são deixadas como marcas históricas. A pose de herói se agachando, tocando os punhos cerrados no solo, recebendo o sol no rosto para, em seguida, alçar voo. O voo em órbita da Terra, bem como o voo abraçado em Lois Lane. Tudo está de volta. Outras referências, porém, mostram os que seriam verdadeiros questionamentos da humanidade no caso de aparição de um ser tão divino quanto Superman, mesmo que timidamente, a religião é colocada em pauta. Clark vai a Igreja e conversa com um padre, em determinado momento, e é enquadrado com um vitral de Jesus Cristo ao fundo. Já em outro momento, questionado sobre sua idade, revela ter 33 anos. Por fim, ao lançar-se da nave de Zod em retorno à Terra, abre os braços em forma de cruz se deixando cair sobre o planeta.

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Para compensar o tempo que gasta mostrando as origens éticas e morais de Super, a partir do instante que Zod chega ao nosso planeta o ritmo do filme muda. As cenas de ação são totalmente megalomaníacas e dignas de deixarem muitos diretores com inveja (lê-se Michael Bay, de Transformers). Superman e seus conterrâneos deixam claro o tamanho do poder destrutivo que têm, não restando quase nada de pé. Um herói recém-formado ainda não tem toda a maturidade esperada pelos acostumados a vê-lo sempre poupando as vidas terrestres, não conduz muito bem seus duelos e apanha bastante. O real destaque é a devastação de Metrópolis, com prédios inteiros vindo abaixo, caos instaurado e pessoas sendo massacradas pelo exército de kryptonianos. Tudo isso funciona de forma primorosa na construção do mito Superman, um dos seres mais poderosos do universo DC, dando noção aos seus poderes. Os efeitos visuais são executados com tanta perfeição que as batalhas realmente impressionam ao, inclusive, não causarem nenhum desconforto em relação às apelações gráficas. A inovadora trilha de Hans Zimmer, conhecido também pela trilogia Batman, dá um tom mais sério e moderno ao filme, adicionando o nível de tensão necessário no fundo das cenas.

A construção da personalidade de Clark Kent foi orquestrada por Jonathan e Jor-El, ambos mostrando a ele os princípios de suas raças, moldando o caráter altruísta típico do super herói que, dessa vez, porém, não é bobo como em suas últimas aparições. O Superman de Snyder não tem medo de agir de forma mais chocante quando é provocado ou se faz necessário. E por falar em Snyder, as câmeras lentas características do diretor não tem vez em Man of Steel, filmado com câmeras próximas à ação, sem cortes rápidos, permitindo apreço da situação.

Lois Lane: They say it’s all downhill after the first kiss.
(Dizem que, depois do primeiro beijo, as coisas todas desandam)

Apesar de tantos bons elementos, o roteiro, de David S. Goyer, não é à prova de problemas. Talvez o que mais incomoda seja a cena em que Lois é chamada para dentro da nave de Zod junto a Superman, sem nenhum motivo aparente para isso. A total aceitação de Clark com sua origem, quando lhe é revelado por Jor-El, também causa estranheza, se tornando um recurso fácil demais para a trama, sem drama pelo manto de herói, mesmo que tenha sido explicado, diversas vezes, que Clark sempre foi ajudado a pensar como herói e buscasse seu passado. A explicação, aliás, é um ponto que Nolan sempre se atém. O produtor perde a chance de deixar as coisas mais suspensas na atmosfera do filme, dando chance de serem imaginadas e questionadas por quem assiste e prefere explicar tudo, provavelmente com intenção de atingir o nível de intelecto de todo o público.

Com toda essa mudança na forma de se pensar no Superman, foi realmente possível enxerga-lo de maneira diferente e acreditar nele. Ou não. Essa versão mais contextualizada para os tempos atuais, porém, é mais inteligente, causando mais pensamentos filosóficos acerca da obra depois que a história termina que durante a exibição. Talvez essa mudança de contexto e a busca pelas origens alienígenas tenham causado um efeito ruim sob a mira daqueles que não estão ou não querem estar preparados para uma repaginação, um novo Superman, o que torna O Homem de Aço um filme de extremos, ou você o ama, ou o odeia.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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