Depois da Terra

Depois da Terra

É inegável o fato de que as campanhas de divulgação cresceram de forma monstruosa no mundo cinematográfico e, com mais importância, os trailers se tornam, em alguns momentos, maiores que os próprios filmes. Depois da Terra (After Earth) é um desses casos tristes, que criam expectativas além do oferecido pela obra.

Nos primeiros instantes de projeção a película apresenta um recurso que considero datado, principalmente para o gênero, que explica tudo que deveríamos descobrir: a narração. Como é contado, o ser humano degradou a natureza da Terra de tal forma que forçou a evolução do planeta contra sua principal ameaça, os próprios humanos. Há cerca de mil anos, a população resolveu deixar o então hostil planeta natal em busca de nova moradia, encontrando, assim, o planeta Nova Prime. Juntamente com o lar, a espécie humana ganhou um inimigo que, apesar de cego, as criaturas têm a capacidade de farejar os feromônios do medo.

Com a nova realidade, cria-se a necessidade de um exército de soldados destemidos, capazes de aniquilar as Ursas – nome dado aos alienígenas farejadores – os Rangers. Cypher Raige (Will Smith) é um ranger que, como todo militar em missão, deixa a desejar em suas funções como marido e pai por conta do trabalho. Aqui é onde se observa a maior influência do diretor M. Night Shyamalan, conhecido por Sexto Sentido e Sinais, sempre adicionando algum conflito familiar nas tramas. Kitai (Jaden Smith) é filho de Cypher e sonha em ser um Ranger, entretanto não possui aptidões físicas para isso.

O visual adotado para o sci-fi é interessante. A nave usada pelos personagens principais para viajar entre planetas tem o formato de uma arraia, as vestimentas contam com um tecido inteligente que muda de cor ao sentir vulnerabilidade física do usuário ou perigo no ambiente, além de formas de comunicação avançadas e moradias com aspectos alienígenas. Apesar disso, não traz cenários externos inovadores, mostrando um planeta agressivo com muita selva e animais predadores, como em Avatar, porém genérico.

Após uma chuva de meteoros atingir a nave-arraia, uma manobra arriscada e um pouso forçado levam os tripulantes ao planeta hostil, deixando apenas Cypher e Kitai vivos. Evitando deixar a intuição do público trabalhar no óbvio, o filme prefere dar mais explicações e deixa claro que aquela é a Terra. O excesso de esclarecimento é irritante, deixando a impressão que o público não seria capaz de captar as informações, ou que o filme seria incompetente em transmiti-las. A partir daí, o enredo evolui de forma previsível, em busca da sobrevivência e de uma forma para voltar para casa.

As atuações têm seus contrapontos. Não dá para disfarçar a intenção de Will Smith de impulsionar a carreira de seu filho, dando a ele, na trama, toda a responsabilidade pela condução da história. Will faz bem o papel de militar sem sentimentos, pai durão, que não mostra intimidade com o filho, porém guarda no fundo dos olhos o orgulho pelo jovem Kitai. Já Jaden tem momentos distintos. Em alguns momentos mostra segurança e age com convicção, convencendo o público. Em outros, porém, ele é oscilante e parece não estar preparado ainda para conduzir, sozinho, as cenas importantes. Seu personagem, aliás, não teve um desenvolvimento linear e digno de convencimento necessário para o ato final. Kitai parece passar de grande desajeitado, em poucos segundos, para soldado treinado.

A mistura de ficção científica, com fortes influências da Cientologia, aventura e sobrevivência não se sai bem em todos os momentos, mostrando heterogeneidade na visão geral. Existem, inclusive, cenas que flertam com os gêneros de suspense e terror, mesmo que se fazendo presente em sonhos e alucinações, demonstrando a intervenção de Shyamalan no roteiro, dando proximidade com suas obras passadas.

After Earth parece mais um entretenimento despreocupado, que se esforçou em um visual futurista mais original que de costume e maior enfoque no problema familiar, sobretudo a relação entre pai e filho, relaxando, no entanto, com um roteiro prático e sem inovações. Para os fãs de Will Smith ou do gênero sci-fi é uma aposta válida. Já aos menos entusiastas, talvez seja melhor esperar pelo lançamento em outras mídias.

Giuseppe Turchetti

Formado em Ciência da Computação, técnico em Informática, analista de suporte, colunista de cinema no jornal Diário de Taubaté e administrador do Censura Geek. Respiro o universo Geek todo o tempo. E ainda não conheço um fã de Batman maior que eu!

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